sábado, 29 de setembro de 2012

aquele do casal de velhinhos

Desde que mudei de cidade, acostumei-me a acordar cedo, por volta das seis da manhã e caminhar na areia da praia. Rio de Janeiro é outra cidade pela manhã, tão diferente que chega a parecer estranha. É calma, tranquila e o melhor lugar para se pensar. E eu partia cedo para minha caminhada e sempre encontrava um casal de velhinhos todo dia sentados em um banco próximo à barraca de água de coco que ainda se encontrava fechada. Ele estava sempre abraçado a ela e não conversavam, mas eu podia ver o sorriso de cada um. Ela ficava de olhos de fechados, mas era nítido que só fazia aquilo para apreciar ainda mais o momento, enquanto ele sempre me via e me cumprimentava com um aceno de cabeça, mas com toda calma para que ela não se incomodasse. Via aquela cena todos os dias, e de certa forma mexia comigo, porque me imaginara lá, com meu marido, daqui há cinquenta ou sessenta anos - no fundo, desejava chegar aquela idade apaixonada daquele jeito. Isso se repitiu por cerca de um ano e meio, até que certo dia, lá estava o senhor, mas não sua mulher. Ele tinha um olhar melancólico, mas sorria, como que conformado. Estranhei, afinal, em todo aquele tempo, isso nunca ocorrera. Resolvi perguntar.
Me aproximei dele, e pude ver que uma lágrima escorria calmamente de seus olhos, mas o sorriso ainda estava lá. Questionei porque ele estava sozinho, afinal nunca havia o visto sem ela. Mais uma lágrima escorreu. Ela havia morrido, sofria de uma doença terminal descoberta há dois anos, e desde então, ele resolvera realizar todos seus ultimos desejos. Eles haviam se conhecido naquela praia, há cinquenta anos, quando ele derrubou toda a água de coco que ela tinha. Eu ja me sentia mal por ter perguntado, mas questionei que, mesmo com tudo aquilo, ele ainda sorria, e como conseguia. Ele sorriu ainda mais, e com toda paciencia, disse que sabia que aquilo iria acontecer, e em todo aquele tempo, ele nunca se arrependeu em nenhum momento da escolha de passar toda a vida dele ao lado dela. Sorria por saber que fizera da vida dela algo muito feliz, e ela a dele. Ele me repetiu as ultimas palavras dela, que foram "Obrigada por fazer da minha vida um eterno amanhecer ensolarado".

aquele da primeira tatuagem

Lembro de nós dois andando pelo centro de mãos dadas, eu ria, mas estava nervosa, enquanto você gargalhava da minha cara de assustada e das minhas mãos frias. Depois de tanto escolher, havia decidido minha tatuagem, e quando te disse isso, você fez questão de me acompanhar - não só pelo medo, mas queria garantir que eu não iria pular fora na ultima hora. E fez bem, porque todo aquele trajeto do meu pequeno apartamento onde havíamos dormido até o estúdio daquele seu amigo maluco mas muito legal teriam me feito desistir. Então você segurava a minha mão bem firme, e eu sentia que você estaria ali, senão para sempre, por um bom tempo - tempo mais do que suficiente. Eu tinha decidido por uma âncora na coxa, e você concordava com tudo o que eu dizia, mesmo insistindo para que eu fizesse algo como uma bruxa ou uma caveira. Chegou até a mencionar o desenho de um palhaço, mas mudou de ideia tão rapido quanto a escolheu, afinal eu morria de medo de palhaços.
Depois de uns quinze minutos, chegamos ao estudio, comigo tremendo de medo e você rindo em alto e bom som, como se quisesse mostrar a todos que eu era medrosa. Entramos e seu amigo todo estranho nos esperava, usando uma camiseta do nirvana, com a cabeça raspada e com seis piercings apenas no rosto, o que me fazia ficar imaginando o quanto mais estariam espalhados pelo corpo daquele homem alto que você se referia como "tyson". Me perguntava se isso era um nome ou apelido, mas pela cicatriz dele no braço esquerdo, que ia do ombro até o cotovelo, deduzi que seria apenas um apelido. Sentei-me na cadeira e estiquei as pernas enquanto você puxava uma cadeira e se sentava ao meu lado, ainda segurando e acariciando minha mão. "Tyson" percebeu claramente que eu estava assustada, então colocou uma musica para acalmar o ambiente. Eu nunca havia ouvido aquelas musicas, mas com certeza gostaria de voltar lá e perguntar quais os intérpretes daquela melodia tão boa que fazia com que você tentasse acompanhar a batida com os pés no chão. A agulha se aproximou da minha pele, e um arrepio de medo me subiu a espinha, fazendo você segurar mais forte minha mão e acariciar meus cabelo bagunçados. Não doia, e eu percebera que era verdade o que você vinha me falando a meses. Nunca entendi como você tinha tanta coragem de ter aquele ceifador nas costas e aquela caveira no peito, mas agora eu percebia que nem era tão ruim assim - era uma dorzinha mínima, quase que como uma coceira ou um pequeno choque, mas que acabava se tornando até mesmo boa. O tatuador maluco me dizia que eu havia escolhido bem o lugar para começar a fazer tatuagens, porque não passava por nenhum osso, e eu agradecia internamente por meu desejo de fazer tatuagens em lugares um pouco diferentes. Foram quase três horas fazendo aquilo, mas havia ficado linda, e foi quando comecei a me arrepender de não ter feito antes. Voltamos para casa, e eu não cansava de tentar traduzir para você o que eu sentia, mas você não ligava que eu falasse demais, nem um pouco na verdade - você só sorria, concordava, e por fim, me interrompeu com um dos seus melhores beijos, me fazendo esquecer de tudo, e disse que tínhamos que comemorar. Concordei.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

aquele sobre a lua

A madrugada é, definitivamente, o melhor horário do dia. Me agrada demais levantar as três ou quatro horas e abrir a janela para observar. Frio ou calor, tudo se torna tão intenso à luz da lua e das luzes da cidade, que me faz viajar e flutuar. É bom ter aquele momento para pensar, nem que seja por alguns minutos, antes de algo estranho atrapalhar - um vizinho brigando ou alguma batida de carro. As madrugadas de lua cheia tem um toque especial, como comer um chocolate com uma pequena pimenta ao centro para completar o sabor, e tudo aquilo parece que não se incomodaria de durar para sempre e garanto que, se pudesse, pediriam para que o tempo, se não parasse, andasse muito mais devagar, apenas para que eles pudesse embelezar a noite um pouco mais. Minha janela do 5º andar não é a mais alta, mas é o suficiente para levar minha mente ás alturas e me fazer desejar ser um pássaro - ou mesmo uma pequena abelha - e, mesmo que por alguns minutos, voar de acordo com o vento, Deixar que ele me conduzisse à sua vontade e me mostrasse o que ele tem de melhor, o que eu tenho grande expectativa de que não é pouco.
As luzes da cidade ditam sua própria melodia, e musica alguma do mundo poderia compor sinfonia melhor para acompanhar aquele momento. É um som calmo e intenso, que consegue ser perfeito para cada ouvido que fica para o escutar. E são justamente esses detalhes que me agradam - a simplicidade em si me agrada demais. É magico ver aquela pequena abelha retirar o pólen da flor para carregar até sua colméia, ou observar os pássaros ao raiar do dia indo para o sul, e ao entardecer, voltando para norte. Talvez se seguíssemos isso, talvez se as pessoas se importassem com os detalhes de vez em quando, talvez, e apenas talvez, o mundo pudesse ser um pouco melhor para elas mesmas.

aquele do café

Era uma cena idiota - e eu sei disso porque você ria - mas meu sorriso bobo fazendo café na cafeteira nova era como o de uma criança escolhendo um brinquedo novo. Você ria da cena, e ria ainda mais quando se lembrava de toda a birra que eu fiz por aquela cafeteira - foram semanas te pedindo e te arrastando quase todo dia à loja para tentar te convencer. Você dizia que seria inútil, que poderíamos muito bem fazer café normalmente, o que significaria ir todo dia até a cafeteria da esquina e comprar um expresso e um pingado, porque nenhum de nós sabia fazer café em um coador. Eu emburrava e dizia que seria melhor termos uma cafeteira, que eu aprenderia a usar e a fazer café, e poderíamos ficar mais tempo na cama, em vez de ter que acordar todo dia vinte minutos antes para poder comprar. Você dizia que iria pensar, e eu insistia - e me encantava com seu rosto de bravo quando eu falava que teria que ser vermelha. Era um encanto você reclamando que, além de eu querer uma cafeteira, ela teria que ser vermelha. Então um dia, quando eu acordei de manhã - a propósito, vinte minutos mais cedo do que o necessário para comprar café, lá estava ela: a cafeteira, e você do lado, fingindo estar emburrado, mas eu podia perceber seus olhos brilhando por notar meu sorriso. Havia sido uma surpresa e eu havia amado. Podia ver em seus olhos a intriga, como se me perguntassem “Como você pode ficar tão feliz por algo tão simples?”. Eu não precisaria de uma cafeteira para sorrir todas as manhãs, e não iria emburrada para a padaria todos os dias porque ele estava comigo, e isso era mágico. A cafeteira era apenas um sonho - antigo e infantil, por sinal - mas que mesmo assim, mesmo sendo vago, ele havia realizado. Havia percebido que era, de certo modo, importante para mim - além, é claro, de saber da minha incrível paixão por café. Você sabia meus tipos de café preferido, e sabia qual era o certo pra cada humor meu. E naquela manhã, eu sorria feito boba, e preparava café para nós dois, enquando você ria, e me dizia a importância de comprarmos um daqueles grills que passam na tevê. Eu discordava, dizia que era inútil, e você me apresentava inúmeros argumentos sobre a importância de um grill. E, de certa forma, eu sabia que teríamos um grill, porque eu compraria e aprenderia a usar, mesmo que meses seguintes você se arrependesse.

aquele da praia

Eu poderia rir daquilo por semanas, e provavelmente o faria, mas seria apenas porque te amo. Seu olhar brilhante, seu sorriso torto e sua cara de felicidade quando viu o mar pela primeira vez talvez foi a coisa mais ilária e mágica que eu ja havia visto. Você nascera no campo, em meio a hortas, pomares e riachos, ajudava seu pai com o gado e tinha um pintinho de estimação - que você se assustou quando começou a crescer (foi sua mãe que me disse uma vez). O mais longe que você havia ido, pelo o que havia me contado, era a cidade onde morávamos, a qual você demorou tempos para se acostumar e não dizer mais "cidade grande". Morávamos a uns 100 km da praia, e mesmo depois de quinze anos que você havia se mudado da fazenda, nunca havia visto o mar, então decidi que iríamos até a praia naquele final de semana. Deixei tudo arrumado e te acordei de madrugada porque pensei que seria perfeito te apresentar ao mar em meio ao amanhecer. Você acordou resmungando, reclamando e dizendo que estava cedo demais e frio demais, mas aceitou e dormiu no banco do carro - e roncou muito, a propósito. Chegamos e o sol ainda não aparecia, mas o dia começava a clarear. Te acordei e você desceu do carro ainda sonolento - talvez por isso não teve nenhuma reação a princípio, mas ai você percebeu onde estava. Eu estendia uma toalha de piquenique no chão enquanto pegava cobertores para nós quando vi você entrando no meio daquele mar gélido, mas sem se importar com a temperatura. Você pulava para todo lado e de longe podia ver seu sorriso de orelha a orelha - e você jogava água pra todo lado, mergulhava como um nadador profissional e voltava, ainda maravilhado. Eu me sentei para ver aquela cena, e logo você saiu da água, tremendo, e veio em minha direção em busca de uma toalha, roupas secas e um cobertor. Por sorte, eu havia planejado que entraríamos na água, apenas não tinha imaginado que seria tão rápido, então te ajudei a se secar, te dei outra roupa e fomos ver juntos o nascer do sol, enrolados em um enorme cobertor. Você tremia e se sentia envergonhado por ter feito aquilo, mas eu não ligava, afinal você conseguia ficar lindo até mesmo daquele jeito - na verdade, você ficava lindo de todos os jeitos. Então te abracei pra te esquentar, e em silêncio, vimos aquele perfeito nascer do sol, fato que você me lembra e me agradece até hoje. E desde então, fazemos isso todos os finais de semana: pegamos o carro bem cedo, vamos até a praia, vemos o sol nascer, e brincamos naquela água imensamente gelada até resolvermos ir embora, independente da hora.