sexta-feira, 28 de setembro de 2012

aquele do café

Era uma cena idiota - e eu sei disso porque você ria - mas meu sorriso bobo fazendo café na cafeteira nova era como o de uma criança escolhendo um brinquedo novo. Você ria da cena, e ria ainda mais quando se lembrava de toda a birra que eu fiz por aquela cafeteira - foram semanas te pedindo e te arrastando quase todo dia à loja para tentar te convencer. Você dizia que seria inútil, que poderíamos muito bem fazer café normalmente, o que significaria ir todo dia até a cafeteria da esquina e comprar um expresso e um pingado, porque nenhum de nós sabia fazer café em um coador. Eu emburrava e dizia que seria melhor termos uma cafeteira, que eu aprenderia a usar e a fazer café, e poderíamos ficar mais tempo na cama, em vez de ter que acordar todo dia vinte minutos antes para poder comprar. Você dizia que iria pensar, e eu insistia - e me encantava com seu rosto de bravo quando eu falava que teria que ser vermelha. Era um encanto você reclamando que, além de eu querer uma cafeteira, ela teria que ser vermelha. Então um dia, quando eu acordei de manhã - a propósito, vinte minutos mais cedo do que o necessário para comprar café, lá estava ela: a cafeteira, e você do lado, fingindo estar emburrado, mas eu podia perceber seus olhos brilhando por notar meu sorriso. Havia sido uma surpresa e eu havia amado. Podia ver em seus olhos a intriga, como se me perguntassem “Como você pode ficar tão feliz por algo tão simples?”. Eu não precisaria de uma cafeteira para sorrir todas as manhãs, e não iria emburrada para a padaria todos os dias porque ele estava comigo, e isso era mágico. A cafeteira era apenas um sonho - antigo e infantil, por sinal - mas que mesmo assim, mesmo sendo vago, ele havia realizado. Havia percebido que era, de certo modo, importante para mim - além, é claro, de saber da minha incrível paixão por café. Você sabia meus tipos de café preferido, e sabia qual era o certo pra cada humor meu. E naquela manhã, eu sorria feito boba, e preparava café para nós dois, enquando você ria, e me dizia a importância de comprarmos um daqueles grills que passam na tevê. Eu discordava, dizia que era inútil, e você me apresentava inúmeros argumentos sobre a importância de um grill. E, de certa forma, eu sabia que teríamos um grill, porque eu compraria e aprenderia a usar, mesmo que meses seguintes você se arrependesse.

Nenhum comentário:

Postar um comentário