Era uma cena idiota - e eu sei disso porque você ria - mas meu sorriso
bobo fazendo café na cafeteira nova era como o de uma criança escolhendo
um brinquedo novo. Você ria da cena, e ria ainda mais quando se
lembrava de toda a birra que eu fiz por aquela cafeteira - foram semanas
te pedindo e te arrastando quase todo dia à loja para tentar te
convencer. Você dizia que seria inútil, que poderíamos muito bem fazer
café normalmente, o que significaria ir todo dia até a cafeteria da
esquina e comprar um expresso e um pingado, porque nenhum de nós sabia
fazer café em um coador. Eu emburrava e dizia que seria melhor termos
uma cafeteira, que eu aprenderia a usar e a fazer café, e poderíamos
ficar mais tempo na cama, em vez de ter que acordar todo dia vinte
minutos antes para poder comprar. Você dizia que iria pensar, e eu
insistia - e me encantava com seu rosto de bravo quando eu falava que
teria que ser vermelha. Era um encanto você reclamando que, além de eu
querer uma cafeteira, ela teria que ser vermelha. Então um dia, quando
eu acordei de manhã - a propósito, vinte minutos mais cedo do que o
necessário para comprar café, lá estava ela: a cafeteira, e você do
lado, fingindo estar emburrado, mas eu podia perceber seus olhos
brilhando por notar meu sorriso. Havia sido uma surpresa e eu havia
amado. Podia ver em seus olhos a intriga, como se me perguntassem “Como
você pode ficar tão feliz por algo tão simples?”. Eu não precisaria de
uma cafeteira para sorrir todas as manhãs, e não iria emburrada para a
padaria todos os dias porque ele estava comigo, e isso era mágico. A
cafeteira era apenas um sonho - antigo e infantil, por sinal - mas que
mesmo assim, mesmo sendo vago, ele havia realizado. Havia percebido que
era, de certo modo, importante para mim - além, é claro, de saber da
minha incrível paixão por café. Você sabia meus tipos de café preferido,
e sabia qual era o certo pra cada humor meu. E naquela manhã, eu sorria
feito boba, e preparava café para nós dois, enquando você ria, e me
dizia a importância de comprarmos um daqueles grills que passam na tevê.
Eu discordava, dizia que era inútil, e você me apresentava inúmeros
argumentos sobre a importância de um grill. E, de certa forma, eu sabia
que teríamos um grill, porque eu compraria e aprenderia a usar, mesmo
que meses seguintes você se arrependesse.
Nenhum comentário:
Postar um comentário